Mas com certeza a peça de Mozart em que a viola é mais proeminente - e talvez também a peça para viola mais gravada de todas - é a Sinfonia Concertante. Ninguém sabe exatamente quando essa peça foi composta, em que contexto e quem a estreeou. Supõe-se que foi o próprio Mozart, já que ele tocava viola. O adjetivo "concertante" deixa claro que essa sinfonia se trata de uma peça para uma grande formação de instrumentos onde dois deles vão eventualmente tomar o primeiro plano, se tornando algo como um meio termo entre a sinfonia e o concerto. A orquestração original pede violino e viola solos, dois náipes de violino, dois náipes de viola, duas trompas, dois oboés e baixo (violoncelos e contrabaixos). O caráter sinfônico da peça é acentuado pelo fato de que a partitura pede que os solistas toquem junto com seus respectivos náipes durante os
tutti, para depois se destacarem da orquestra para solarem. Tanto o violino quanto a viola dividem a foco da composição igualmente, engajados numa escrita dialógica que parece tentar contrastar o timbre do violino e da viola. Por causa do caráter brincalhão e experimental dos temas, que são quase sempre iniciados pelo violino e repetidos ou respondidos pela viola, a peça parece ter sido concebida por Mozart para ser uma exibição das possibilidades da viola, um instrumento que não inspirava muita fé como solista entre os compositores clássicos. As candezas solo onde a orquestra fica em silêncio e os dois solistas se engajam em um diálogo mais complexo são famosos por demonstrar um uso incomum de dissonâncias em Mozart. Atente para o segundo movimento, lento e choroso, parecendo planejado para fazer a viola exibir seu timbre morno e introspectivo.
Existem muitos vídeos da Concertante no YouTube, incluindo a já clássica combinação do violinista Maxim Vengerov e do violista Yuri Bashmet, com esse último regendo. Mas prefiro postar aqui uma gravação mais recente, executada com mais
gusto e onde a viola pode ser ouvida mais nitidamente.
I. Allegro maestoso (parte 2)
II. Andante (parte 1)
II. Andante (parte 2)